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Libros en blanco

julio 2, 2020

Rememorando días

en que la vista

parecía abierta

me deparé con tenues

incertidumbres

proféticas.

 

Quizás el privilegio

del optimismo

raro

obnubilase el claro

discernimiento

vano

 

de que, como es sabido,

soñar es otro plano.

 

Vagando los caminos

que traen de vuelta

al tal presente

reviví no sin pena

comprobaciones

inminentes:

 

la ineptitud del sueño;

la impotencia, la sed.

 

Acaso embarullado,

una amalgama

de decepciones;

y suele ser tan nítido,

tanto más vívido

el desencanto:

 

resulta más sencilla

la fe vacía,

el verbo craso.

 

Si el ahora es sin luz,

digo:

No por acaso

a los ojos cerrados

todas las hojas

están en blanco.

.

.

Desmentidas

mayo 3, 2020

Son, si pensamos, tiempos tan pipones

en que todos podemos cocinarnos

sin ser mujeres, sin avergonzarnos;

y una mujer, no por obligaciones.

 

Y el amar por amar, y los condones;

las ideas, viajes, promocionarnos;

comer todo y de más, inocularnos.

Pero no festejemos bendiciones:

 

las libertades que no siempre vemos

muchos no las verán, pues no las tienen;

por cada paso andado hacia adelante

 

ya hubo medidas para que avancemos

lo que al esquema solo le conviene;

que nos oprime, hoy casi como antes.

.

.

Isolamento (working project)

abril 19, 2020

–Amanhã faremos barba e cabelo; sim, amor?

Ramiro sorri timidamente, como quem não quer contradizer nem contestar, tentando expressar gratidão. Foi ele mesmo que falou e falou que estava desarrumado; a barba estava ficando sem jeito e ele não gostava disso. E, mesmo sem poder sair, debilitado e exposto, tinha claro na sua consciência que precisava estar bem apresentado, digno, até em sendo para encarar esse destino incerto.

Como se atesta a dignidade de uma vida?

Ele entra no banheiro, um passo de cada vez; tempo de sobra, o de sempre e o de agora. Ironia destes tempos, o tempo: ele costumava se indagar sobre o tempo que teria de vida, se lhe restaria muito ou quanto; nas horas do ócio da solidão, ponderava questões para as que, sabia, não existe resposta. Hoje, no entanto, perdia-se em considerações banais: a dignidade de um rosto bem lavado e a barba feita numa pia limpa. Impecável: livre de pecado; pois, quem sua face asseia com a límpida água, clara e corrente na bacia clara da manhã, sua dignidade exibe na limpeza dos seus atos. Ramiro até sorriu um sorriso debochado diante de tamanha banalidade, quiçá a pior interpretação de dignidade que poderia lhe ter ocorrido.

Dignidade: pela quantidade de vezes que o banheiro é lavado por semana, mesmo que seja limpo por outra pessoa? A certeza o alfinetou, como nunca ou mais que sempre, que seus filhos estariam se sentindo mártires da pureza das almas, passando um pano na banheira; seus netos, posando cheios de dentes orgulhosos ao lado de um ovo frito por eles mesmos em alguma rede social. E todos, da maneira mais ou menos indireta que o conforto do dinheiro permite, garantindo-lhe a santidade de uma pia brilhante, pela barganha de um salário mínimo, casa e comida, com que compraram parcelado seu sossego.

Ramiro olha para a Adrienne. Não pode mandá-la voar, sabendo que, talvez, voar seria cair. Erige-se em seu cuidador: o mal-lavado velando pelo sujo; só que, aqui, tudo e todos bem limpinhos.

Agora, todos se medindo em transmissões ao vivo de aulas de ioga, acompanhadas e referendadas só se postas na linha de tempo da rede, para quem está do seu lado e nunca esteve, ver. Hoje, se arrumando para ir ao trabalho em casa, pois é essencial se vestir e passar perfume para introjetar o pertencimento à comunidade remota. Nesta hora de se evitar o desespero, a desesperança abraça Ramiro enquanto ele olha para sua criada adquirida em cômodas cotas mensais, pensa no esmero da pia e no jeito dado para se preservar o estado de coisas de um mundo que apenas aprende a deixar a injustiça vencer.

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Gado

febrero 10, 2020

Dionisio, meu cachorro, olhando a chuva pela janela como se entendesse que não iremos passear. Na verdade, ele compreende, sim: eu que vivo me questionando e cuidando de não “humanizar” o bicho. Coisa de moderninho desocupado!

Cada um com seu modo de abraçar o mundo. Sob o som da chuva tenaz, eu relia a notícia da retirada de livros. Deve ser mesmo que eles são nocivos… Talvez proibir um texto literário no qual uma personagem –fictícia, sem importar a relevância nem o conteúdo de sua história?, bradam os vermelhos– é lésbica, ajude a proteger nossos filhos e evitar que eles se tornem depravados. Porque, com certeza, isso é antinatural e aviltante. E satânico… Sim, seguramente, satânico!

E até ouvi uns professores reclamando que vários dos livros estão nos conteúdos de leitura… Nunca vi coisa igual! Ainda bem que eu acabei a escola faz muito tempo; mas precisamos zelar pelas nossas crianças.

O cachorro continua a olhar para a chuva. penso eu, é bem mais simples ser um animal, sem ficar exposto a tanta degeneração intelectual e moral. Bem que eu queria ter nascido um gato. Ou um boi…

 

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Conexiones

noviembre 29, 2019

No termines solo.

Muchas soledades

están aguardando:

 

La causa perdida

La mano dejada

La cama vacía

La mesa callada

La ventana fría

La mirada vaga

La cocina muda

Sin risas, sin nada

 

Todas las viudeces

desgarran el alma.

Tantas otras veces

sentirás que acaba.

 

Pero no te quedes

solo;

no defiendas

todo.

No te encierres

como

si supieses

 

que la vida se fía

de tus decisiones;

que estás vivo

sin pasiones.

 

No te dejes solo.

 

Puede que no tengas

soles,

que te falten

los amores.

Esos van y vienen;

sal y nieve.

Esos que creemos

dones.

 

No es de páramos

inertes

que el río en el mar

se vierte;

no por seguir otro cuerpo

seguro estás menos muerto.

Empezar contigo

para no quedarte

solo.

 

La voz reprimida

La faz remilgada

El ansia escondida

La caricia atada

 

Eso nos quita

a todos;

nos garantiza

solos;

nos ratifica

como

si fuésemos

 

quien ya no necesita

sensaciones;

que perdimos

las opciones.

 

No te sientas solo,

aun si para eso

debes

descubrirte

las heridas.

Esas pasarán;

es la vida.

Mientras sanes

es medida.

 

No es el aire

que nos cierne

lo que nos respira:

invierte.

No por no tener cojones

te evitarás moretones.

Es estar en alguien

para no borrarte

solo.

 

Para no haber malgastado

el tiempo;

para poder regresar

al viento

sin haber desperdiciado

el viaje.

Más, mucho más,

si acumulaste equipaje.

 

No abandones todo;

no termines solo.

 

 

 

Redução

octubre 31, 2019

Medo

Que tiras meu sono

Sufocas o fôlego

Borras o sorriso

 

Quando a cegueira

Não é mais um ensaio

 

A face horrorosa

Da de-evolução

Faminta de foice

Mordaça

 

Capitão do mato

Mata capital

Pecado basal

Embasa

 

A classe do ódio

A pele da cor

Ignorância amor

Arrasa

.
.

Retorno

agosto 14, 2019

Las pequeñas vidas

Las que se sustentan

Las vidas vacías

Las que se contentan

Las que no amanecen

En ríos de espumante

Y las que lo hacen

Ahora como antes

Las que se arremangan

Al romper el día

Las que llenan trenes

La suya y la mía

Las vidas inanes

Las vidas pequeñas

Las que no dirigen

Las que no son dueñas

Las que tienen todo

Y las más carentes

Que van para el lodo

Juntas al poniente

Esas vidas pobres

A tus ojos ciegos

Las pequeñas voces

Y los grandes egos

Las que llenan arcas

Las que las ultrajan

Las que eligen ídolos

Y las que los bajan

Las que hacen la mesa

Pecheando las olas

Las que agregan vidas

Las que mueren solas

Esas que no cuentan

En los testamentos

Las que no te llevas

A tus aposentos

Las que ignoran tanto

Que tú las ignoras

Las que valen oro

Las que valen horas

Las que no te faltan

Y las que te sobran

Las que te administran

Y las que te cobran

Que ponen los platos

En tu harta mesa

Las que empequeñeces

Para tu grandeza

Esas que te votan

Esas que lastimas

Las que manipulas

Las que desestimas

Las vidas de otros

Vidas invisibles

Las que quedan fuera

Irreconocibles

Las que anhelan pan

Las vidas de tierra

Las que en tus designios

Van para la guerra

Las que hacen tu vino

Y tienden tu cama

Arrastran tus cofres

Por sobre la lama

Vidas que hacen puentes

Y los abarrotan

Las que no aparecen

Las que no se notan

Que creen la promesa

De que un cielo existe

Bajo la amenaza

De un infierno triste

Las que desconoces

Y las que moldeaste

Que empujan la noria

Hasta que se gaste

Las pequeñas vidas

Y aquellas de alarde

Todos nos iremos

Más pronto que tarde

Al llamar la noche

Al final del día

Pequeñas y grandes

La tuya y la mía

De las finas castas

Y las desclasadas

Las vidas se van

Todas a la nada.
.

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Blemished

febrero 10, 2018

So petty I know

You had me go get drunk

Not proud of what I did

But still I want you

It’s not the wine that speaks

That I can grant you

You’re playing hide and seek

I understand that

You’re playing hide and seek

And we deserve that

You’re taking your time out

And then I want you more

 

Quit the drama

Quite the picture

Everything I’d reject

In a good start

 

Then it’s just life

Want the real thing

Couldn’t see that coming

You got my word

 

I said I’m blemished and I meant it

You said I’m not but I don’t care

As long as you’re not there

 

I shed my skin just watch the outcome

Some say that love just shouldn’t hurt

But then they are not here

 

I’m writing for no-one

At least I know that

Two paths that crossed by chance

Or was that meant too?

You go get mystical

I’m turning human

Take time as well you please

And come full circle

 

Quit the drama

Get the picture

Speak of sins from our birth

I’ll have a snore

 

Then it’s just life

Come and get it

Couldn’t want you no more

Feel distant cries

 

I said I’m blemished and I meant it

You said I’m not but I don’t care

As long as you’re not there

 

I shed my skin just watch the outcome

Some say that love just shouldn’t hurt

But then they are not here

 

 

 

Faces

octubre 28, 2016

The bus finally approached, shaking slightly along the uneven poorly-lit street. Feeling tired and relieved, as usual, he waited for the doors to open and mounted the front steps. He nodded the driver a lukewarm good evening and made for the turnstile in the middle of the empty aisle.

He pressed his wallet against the reader as he held on to the railing; this bus always took that sharp turn-and-slope at the corner. Lifting his backpack, he pushed his weight on to the back aisle as he quickly panned around the rear for an unoccupied double seat. It didn’t matter much, though.

As he came closer to the back seat, he spotted the faces of two guys sitting in the center; one an unknown generic profile looking out the window and the other a young man with his forehead half-covered by the hood of his black jumper. All was black on and around him: the pants, a jacket, tattoos on his hands and his undistinguishable gaze. This guy, however, he knew.

He looked down at his boots to avoid looking at his face, for he noticed in the half-light what he reckoned was the shape of a sleeping woman leaning on his side. He shouldn’t look. He came within a yard and simply nodded slightly; before he’d had the time to turn, the guy blinked back meaningfully, still motionless, in recognition.

He knew –he figured. He turned and sat on the window seat one row ahead, placing his backpack on his lap as he turned up the music on his phone headset. It might be a long short ride. Nothing happened.

Faces look ugly when they eye you as a stranger. The traces of a grip known, or perhaps faintly remembered still, yet obliterated in pretense and the numbness of a public non-encounter.

Maybe it was just a big bag after all. Not his, for he didn’t come say hi at all anyway but he did get off the bus a few stops down the second avenue, his hands in his pockets and his head hanging low under his hood, as he’d once come.

 

Hide from the Sun

agosto 29, 2016

Hide from the sun

We’ve learned to

Hide hide from it

Lest a ray

Hit brighten illuminate

 

In the cracks of town

Along the crevices

We crawl

Fully armoured

Shielded blocked

No patch of nakedness

 

Who dare expose

Animal hide whatsoever

To the sun

The elements

Those natural strangers

Enemies destroyers

 

The latest era of humanity

Much the least human

May as well be the last