Publicado en [português - em verso]

Pequena

No canto da bolsa

o maço de cheiro-verde

aparece ou

se esconde

saindo da feira livre

barulho perdido

devagar, calada

quantos anos ela tem

para onde vai

para onde vem

pequena

tímida ou cansada

será almoço

será sopa

será janta para alguém

ou só

relance

não me diz respeito

não me diz

respeito

mulher

mãe ou filha esposa amiga

não me diz respeito

não me diz

respeito

dela se faz a cena

dela se faz a rua

dela se faz o mundo

dela se fez a vida

respeito

não me diz

respeito.

.

.

.

Publicado en [português - em verso]

inadequados

queria correr

chegar além do amor

para saber uma vez

o que resta

por que isto não presta

para conseguir um pouco de paz

.

ou talvez flutuar

desaparecer

em meio ao ruído

despir-se do medo

sentir-se viver

.

mas não é assim o enredo

preso nessa carne tosca

o ciclo não é concluído

e finda sem ter florido

.

por que esses corpos não são adequados

será o castigo por ter pensado

será que sair dos confins do espaço

nos torna errantes da própria existência

quiçá ter perdido o rumo da essência

ou aprender com a mente a voar

nos tirou do chão

que agora nos falta

.

por que essas mãos ora não respondem

as pernas bambas os passos escondem

será por acaso que fomos embora

será por ventura que passou da hora

o corpo não é praça da imaginação

o ego nos faz perder a noção

e ficamos preteridos

super-sub-evoluídos

.

queria enxergar

para o centro de seu ser

para saber uma vez

o que resta

por que isto não presta

para conseguir um pouco de paz

.

.

Publicado en [verse]

Murmur

When you mumble under pressure

and even so

when you mutter in the stress

I even then

could swear to hearing

the murmur of the ocean

your ancestors’ muffled voices

the duress

that has no name

but had this outcome

.

And I’m thankful from the bottom

of my egotistic heart

that has not ever

nor will it suffer to endure

what can hardly be imagined

.

Not to feel safe

unavoidable condition

everyone is to live under

to push forward

if for once this is to come

.

To feel estranged

inevitable awakening

.

And the mutter and the mumble

and the murmur

will make sense

in the wee hours of the morning

in the solitude of mid-night

in the mindless sense of peril

that will strike

even though nothing

is supposed to bring it down here

where we’re home.

.

.

.

Publicado en [português - em verso]

Com este amor

Com este beijo roubado

declaro meu amor-tesão.

Com esta serenata

de celular no crediário,

sem chão de rosas,

sem quarto de hotel luxuoso.

Com este amor que te faço

rapidinho e escondido

no beco, amor mal feito

sem morangos, sem capa, sem dó.

Com este teu amor sem gozo,

sem DIU, ginecologia,

sem permissão do pastor,

e tu te sentes etérea.

Até daqui a umas semanas,

quando marcar a venérea

ou uma nova gravidez

que será tua outra vez.

.

.

.

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Pau Nosso

O pau nosso de cada dia

já recebemos

nas limitações impostas e nunca mudadas,

não reconhecidas com sinceridade,

jamais debatidas com real interesse;

na sua dissimulação quase constante.

.

Também na caridade de redes

sociais, de dondocas e eclesiásticas.

.

Comemos todo dia desse

pau que o diabo amassa

com, por e graças à receita

que as pessoas que falam por seu deus

resolveram que seria nosso lugar.

Não mais, sem obrigado.

.

Diga-me,

bata-me no rosto com a fúria

das suas crenças.

Tenha a coragem

de mostrar sua desumanidade

para eu saber

com quem vivo

e contra quem lutar,

para onde direcionar minha resistência.

.

A vida já é pequena assim

na falta de ar

da opressão em que nasci,

na qual existo.

Tenha, ao menos, então a decência

de se exibir com sua crueldade nua.

.

Faça igual na rua

como na convivência.

.

.

.

Publicado en [português - em verso]

Alvorada colonial

Tesão querendo ir bem além

a noite é nova e os beijos na calçada

pedem mais do que podemos

pode falar não importa quem

todos de fora desse amor não importa nada

nós dois sabemos

se confundem as mãos com os pés

as bocas molham à procura dos rincões

somos um bicho em construção

sem diferenças nem condições

é verdadeiro esse calor

que brota vivo no colchão

e a vida é

nossa na madrugada

.

o tempo sai pela janela

para nunca mais voltar

e tudo fica em suspensão

com nossos corpos grudados em um só

ninguém diria que possível

fosse empatar o eco mudo

de batimentos que se fecham

sob os gemidos de paixão

mas é assim neste lençol

feito atadura

.

porém, o sol não esquece

que sempre teve uma função

a escuridão cansou outra vez

e a claridade é realidade dura

o telão da noite aos poucos

empurra a alvorada

e da fusão perfeita

única melhor de seres loucos

não sobra nada

.

com a manhã que volta a existir

por muito que estejamos atordoados

e perdidos no descanso consumado

vem o perigo que não poupa

e corpos nus no transe fatal

atestam o pecado imperdoável

de nada adianta procurar a roupa

chorar suplicar tentar sair

.

sabido destino inescapável

na luz do dia

tua mão da cor do café

sobre meu claro peito

sinto tremendo fria

.

e sob a presa da ralé

o céu de dois despedaçado

o asqueroso leito

os criminosos pegos

são arrastados

.

o julgamento foi imediato

as evidências falam por si sós

.

água e azeite não se misturam

essa é a lei primeira

.

chicotadas para todos vós

e para mim a esteira

.

os bons costumes e o recato

cenhos franzidos asseguram

.

restituirá minha nova vida

tempo depois dessa partida

.

..

Publicado en [português - em verso]

Pescoço e cintura

Pendurados do pescoço

como cocos de chumbo sem tique-taque

levo os fracassos aos que fui fadado

ainda antes de nascer;

que não tem mérito que apague

o destino.

.

Um a um

e ao uníssono

pac! pac! pac! pac!

pesam o peso da vida pouca

vida pequena

vida minha.

.

E puxam, oh, como puxam

para o trabalho braçal

para o tanquinho

para a cozinha dos outros

para a pintura da sala alheia;

puxam minha mãe e meu pai

e meus avós…

sortudo eu que sei quem foram,

diferente deles

.

que só

souberam

que eram

pretos.

.

E na cintura

enroscados

os nãos de cada dia,

me segurando perto do chão

na gravidade

física e grave

.

gravitas

dignitas

pietas

iustitia

.

de cada dia,

igual a dor na cintura

nas costas

nas mãos no pescoço nos pés.

.

Caio na cama,

me despenco

em cima dos cocos e dos nãos.

.

.

.

Publicado en [en verso]

En la Casa

Brillante no había nadie

en la casa, pero funcionaba

de maravillas.

Los jardineros le dejaban

el frente bonito para las visitas;

dentro y fuera era un concierto

en el que algunos instrumentistas

eran sordos.

Todo el que pasaba daba

un chaucito con la mano,

giraba la cabeza

y se preguntaba cómo aún

no habían estallado las calderas.

El trabajo de la gerente

del interior

era claro en sus responsabilidades

como complejo en sus maniobras:

nadie debía cruzar la línea

y la casa sería impermeable;

para tal, las reglas y los turnos,

los paneles y las rotaciones;

quiénes podían ver, qué emociones

eran las permitidas; cuáles prohibidas.

Los asistentes de planta, mini corte,

tenían por función oír a todos;

a cada uno escuchar, detectar modos

y filtrar los humores que pudiesen perturbar.

Así el ambiente estaba siempre registrado,

nada pasaba acaso inadvertido;

si los banquetes de la planta pudieran despertar

reticencias, incluso malestares entre el personal,

entonces la comida se preparaba a horas

en que se evitase posibles testigos

de la ostentación

y la propia miseria.

Los alimentos que sustentarían al plantel

eran comprados, guardados, hechos y servidos

lejos de la presencia de otros involucrados;

cada uno comería lo que correspondiese

a su momento, a su modo predeterminado.

.

.

.

Publicado en [português - em verso]

Das horas certas

Queria mostrar-te meu recanto

no calado da noite,

no recorte de luz

alheia, pura, de ninguém.

Aqui, onde tudo é mais santo

e as ondas persistem

e o silêncio produz,

semeia, jura neste além.

.

Pois bem, o eco irresistível

ora fiel, ora imaginado,

que condena a escutar na calmaria,

faria com que visses o temível:

as faces que não visto em pleno dia,

quando ando com passos calculados.

.

Chega um ponto

em que não importa a dor, que continua

sempre presente nas formas cotidianas;

tem um modo de ser vampiresco

que se nutre das diurnas caravanas

sem que a ansiedade atrapalhe ou obstrua.

.

Queria ensinar-te a preservar

o que é mais duradouro

da sensata loucura

que existe em sermos de verdade;

perdidos, sós, irrestritos

no maior dos tesouros.

Em paz com a anonimidade

nessa hora segura.

.

.

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Publicado en [português - em verso]

Logo

Logo eu

que debocho de fórmulas, exceto as que me faço

para enfrentar o des-tino,

fui à beira do teu abismo

de hoje

porque quis –eu sempre quero–

e me deste apenas um ins.tanto

e o reapego foi florido de prantos secos mudos

sem soluço e sem solução.

Mas eu fui

e irei

com a profusão da brisa leve e larga

para/pois ser/sou quem faça este percurso

com a anatômica incorporeidade que ganhei

de dias de risada e de noites de abraços no sono.

É meu direito.

.

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