Skip to content

Esvaído

diciembre 7, 2013

Beberam-se na paixão como se cada um fosse a última gota d’água no mundo. Tinham esperado, desejado tanto. Um bom tempo passou-se enquanto se apreciavam e percorriam incrédulos, trêmulos, e horas após o fato consumado, acariciando os corpos que tinham feito deles bandidos da noite.

E depois? Uma breve alva, um sol gritante anunciando o dia e o fim. E agora?

Melissa apoiou o cigarro fumegante sobre os cadáveres da madrugada e olhou nos olhos de Ricardo, ainda desnudos, ainda roxos, porém já escondidos na cavilação e a falsidade que seguiria ao romance de uma noite só. Ou talvez viessem mais romances truncados, de início e final em poucas horas? A dúvida era o terceiro presente, mais físico que qualquer um dos outros que aguardavam ignorantes pelo retorno dos pecadores.

Ele devia voltar ao lar, junto à família, sua realidade e o que tanto tinha cobiçado e construído ao longo dos árduos anos na cidade. Muito para simplesmente arriscar com um ato irresponsável. Ela podia fingir mais um pouco, sair para andar no bairro, pegar o ônibus e chegar para o almoço na república, sem precisar expiar mentiras com demoradas explicações. No entanto, a simples ideia de afastar-se daquele lugar a deixava algo amargurada de antemão. Não era o lugar em si, mas as ações que ela relutava em transfigurar em lembranças tão logo assim.

Ao entrar na sala, os filhos não correram para recebê-lo, a esposa não se escutava andando por aí, nem a casa pôs-se a dançar. Ele sabia disso; porém, voltou. A fragrância das ondas de Melissa ainda espreitava por trás do cheiro novo do sabonete cuidadosamente passado em todo canto: a presença daquela mulher ficara impregnada na memória da sua pele. Ele sabia; ele sempre soube.

Tão logo assim se amaram –tão logo assim se foi. Sem planos nem promessas, apenas alguns beijos descendo as escadas até quase na rua. Quase. Na rua não tiveram mais daquilo que inventaram; aquilo tão antigo como um olhar roubado ou o desprezo afetado.

Enfim, ela também sabia. Calmou-se, se por acaso ficara um tênue devaneio, olhando as vitrines, como quem quer lembrar alguma bugiganga faltando na cozinha. Um olhar de terça de manhã, qualquer terça, por sinal.

Mais um dia na vida normal dos corriqueiros transeuntes que se cruzam nas calçadas. Um pelo na lapela, ninguém fica tecendo hipótese. Uma marca na nuca, quem enxerga no pulo do cabelo? Nada sobra. Nem sequer o temor da descoberta. Apenas, quiçá, um eco de remorso na trapaça do silêncio.

.

.

Anuncios
3 comentarios leave one →
  1. Phil permalink
    diciembre 12, 2013 10:31 pm

    Coño…!

  2. Phil permalink
    diciembre 13, 2013 10:34 am

    Coño, que buenísimo está eso! Y el português, excelente! 😀

Responder

Introduce tus datos o haz clic en un icono para iniciar sesión:

Logo de WordPress.com

Estás comentando usando tu cuenta de WordPress.com. Cerrar sesión / Cambiar )

Imagen de Twitter

Estás comentando usando tu cuenta de Twitter. Cerrar sesión / Cambiar )

Foto de Facebook

Estás comentando usando tu cuenta de Facebook. Cerrar sesión / Cambiar )

Google+ photo

Estás comentando usando tu cuenta de Google+. Cerrar sesión / Cambiar )

Conectando a %s

A %d blogueros les gusta esto: