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Não é namorada

febrero 20, 2014

A Cantada

Naquela classe do cursinho havia, surpreendentemente, muitas mais alunas do que alunos. Muitas mesmo. Ela sabia que o objetivo era se preparar para o vestibular, mas também queria um pouco de emoção na vida. Afinal, tinha largado o emprego que a mantivera afastada das aulas por um ano, sob pressão dos seus pais, é claro, e na volta aos estudos via-se sozinha sem suas antigas colegas nem os gatinhos do colégio. Contudo, o ano de afastamento fizera bem: Wanessa era agora mais esperta, e tinha uma independência maior e melhor que a das suas colegas. Apenas precisava fazer amizade com algumas e alguns. O problema era que a única das garotas com que ela conversava era bastante careta, e os meninos lhe pareciam isso: meninos.

Até que, um belo dia (belo realmente!), Eduardo, o professor de geografia, chamou-a para entregar uns simulados e parabenizá-la pelas notas. Ele falou, com seu jeito sensual, que estava admirado pelos resultados, e acrescentou que havia tempo não se deparava com uma aluna tão aplicada e, por cima, bonita. Ela corou, ele corou, ficaram sem graça por alguns instantes, e tudo continuou da maneira mais corriqueira possível.

O Encontro

Não se passou muito tempo até a atmosfera ficar quase irrespirável nas aulas de geografia. O ar enrarecido precisava ventilar, ou levá-los além logo. Wanessa juntou coragem e o encarou. Marcaram na hora um café.

Ela queria o Eduardo. Não bastava um café: queria ele. Ele não ficou espantado com a proposta; muito pelo contrário, topou um encontro no seu próprio lar. Morava com a noiva em um apartamentico nos fundos de uma vila escondida nas Perdizes. A sua noiva saía cedo de manhã e voltava no fim da tarde, era sossegado e seguro.

Ao chegarem, juntos no carro do Edu, ela mal se conteve até a porta fechar. Era tão bom quanto imaginara. Seus corpos combinavam maravilhosamente, suas peles se confundiam e ambos sentiram confiança imediata. No meio da tarde ela pediu para ser seu amante. Ele concordou.

Namorada

Quase toda segunda-feira e algumas quintas também, a paixão tomava conta dos belos amantes. Ela fazia de tudo para ignorar a presença da Joanna, concreta, inevitável, antes, durante e depois do jogo. Se eles comiam qualquer coisa, era sempre fora de casa, longe dos itens e pertences do casal. Wanessa chegou a reservar uma suíte de hotel no dia do aniversário do Eduardo, encomendar flores e iguarias e arrumar tudo com antecedência para sua comemoração particular.

Corria tudo à perfeição. Tudo, exceto o fato que ela começou a sentir que merecia mais atenção, tempo e destaque. Foi assim que bolou um plano esdrúxulo, sem avisar nem consultar. Na semana prévia ao seu aniversário, Wanessa pediu como presente aos seus pais um fim de semana na praia, para ela e uma amiga. No seguinte encontro, anunciou a novidade ao Edu. Ele achou péssimo.

“Isso é maluquice, Wanessa! Não tem como acontecer.”

“Mas… eu pensei que, talvez, se você inventasse de ter um acampamento ou qualquer coisa do tipo…”

“Não tem jeito. E tá na hora de encarar a realidade. Tu te acha minha mulher, mas precisa ficar claro mais uma vez que amante não é namorada.”

Saíram sem se falarem, e ele a levou até a esquina da casa. Uma imensa vergonha tomou conta dela, e saiu do carro sem dar tchau.

Despeito

De nada adiantou tentar esconder a desilusão no jantar. Quando a mãe perguntou o que havia que estava deixando-a aborrecida daquele jeito, Wanessa desatou a chorar e arrumou a desculpa esfarrapada de que ela e sua amiga brigaram no cursinho. Não teria viagem, e não queria debater a respeito.

Aquela semana toda, Wanessa matou aula, e não apenas de geografia. Cega pelo remorso, escondeu-se na rua do seu amante e anotou cada vez que ele ou a noiva saíram de manhã e o sentido do percurso. Um dia ele saiu, mais cedo do que costumava, embora a Joanna ainda não tivesse aparecido. Era sábado, o que lembrou na sua loucura de ódio, e achou que fosse o momento ideal.

O Eduardo lecionava de manhã aos sábados, e geralmente voltava perto de meio-dia para buscar a noiva e almoçarem juntos em algum boteco perto da casa. Sua oportunidade estava na mão. Ficou um tempo à espreita, caso ele voltasse ou ela saísse, até que a calma na vila indicou a hora.

Batendo

Wanessa entrou na ruazinha feita zumbi, falando para si as linhas imaginárias de uma conversa enlouquecida; imparável, porém de perna bamba. Driblou os carros parados que ocorreu-lhe pretendiam detê-la, e entre lágrimas tremendas de raiva e decepção enxergou o porta-guarda-chuvas de ferro na soleira da entrada.

Bateu, bateu, e bateu. A porta se abriu, e ela avançou na sala batendo, bateu e bateu mais; até na cozinha, batendo através dos gritos, quebrando por cima dos braços, batendo sem importar o frio da faca nem o suor de sangue que escorria encharcando o vestido. Parou quando o fôlego acabou em um soluço e a raiva fugiu de repente.

Um vizinho entrou temeroso, seguindo as pegadas vermelhas no silêncio enquanto outros ligavam para a ambulância. Eduardo foi buscado pela polícia e retirado de urgência em meio a uma pequena confusão na sala de aula. Chegou desesperado, balbuciando incoerências, e foi levado mais tarde algemado à delegacia.

Negar qualquer conhecimento foi em vão para Eduardo; pouco tempo após a apreensão, a polícia confiscou um presente achado no porta-malas do seu carro, com um cartão de aniversário sem preencher. Uma curta investigação determinou o envolvimento do jovem com a adolescente. Ele apenas conseguiu repetir incessantemente, numa crise de pânico, “Não era namorada!”

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